domingo, 5 de outubro de 2008

Mário Botas

“Histórias do Condado Portucalense (2)”, Mário Botas, 1981; Tinta-da-china e aguarela s/papel, Dimensões Desconhecidas



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Mário Botas, licenciado em Medicina, nasceu na Nazaré. A sua obra pode dividir-se em duas fases, uma antes de ser atacado pela doença mortal que é a leucemia (até 1977), e outra depois.
O dom de fazer desenhos veio já desde criança, os seus rabiscos eram já semelhantes à técnica surrealista de escrever sem o controlo da consciência. Já no seu curso de medicina passava aulas inteiras a desenhar, sem que isso o impedisse de se licenciar com notas altas. Continuou a praticar o seu semiautomatismo pictural durante um estágio de psiquiatria enquanto escutava os doentes.
Ao longo do tempo, o desenho ocupou o melhor do seu espaço artístico, deixando para segundo plano a escrita (pois repetidamente aventurava-se pelos atalhos literários, tendo escrito “Pobríssima aparência da Casa” enquanto terminava a sua licenciatura).
Os seus desenhos mais antigos, já possuem traços do seu estilo e são efectivamente de inspiração surrealista. Este Surrealismo (movimento com traços particulares em Portugal), apresentava-se contra várias censuras da ditadura então vigente – política, clerical, policial, familiar – que enclausuravam Portugal.
Aquando da sua chegada a Lisboa, conheceu por acaso, em 1970, na Galeria de S. Mamede, o surrealista Cruzeiro Seixas e, por intermédio dele, o poeta Mário Cesariny e outros pintores, como Paula Rego e Raúl Perez. Mais tarde, apesar de reconhecer a importância que teve para ele o surrealismo, justifica a sua posterior desilusão:
“Há precisamente treze anos (1970) lia eu, encantado, Le Pás perdus de André Breton. Seguiram-se-lhe Éluard, Artaud, Prévert, Lautréamont, Rimbaud… durante esse ano e os que lhe seguiram fui lendo e relendo o arsenal surrealista. Por outro lado conheci alguns velhos surrealistas portugueses que me iam demonstrando, através de infindáveis intrigas de salão, que um movimento intelectual tem um tempo e uma dinâmica próprios e inclui no seu interior a autodesintegração, matéria afinal da mais elementar higiene… Querer ressuscitar nos anos 70 um surrealismo em terceiras núpcias é acenar a bandeira da conquista nas ruínas de um castelo”.
Mais à frente interpreta o Maio de 68 como o “elogio fúnebre do surrealismo”:
“A minha obra de pintor começa dois anos depois do elogio fúnebre do Surrealismo, as barricadas de Paris, quando se torna evidente a necessidade de criar condições para um novo dadaísmo que por sua vez não conduza ao dogma surrealista, antes caminha para a mais extrema consciência da liberdade individual”.
Data então de 1977 o corte com o “dogma surrealista”. No álbum “Afrodisíacos” (1976-1980), acentua-se a libertação das convenções surrealistas. Às primeiras páginas pode ver-se uma caricatura do papa do Surrealismo português a tinta-da-china intitulada “Cesariny, the Waiter…”.
No princípio de 1978, Botas parte para nova Iorque em busca de tratamento. Com o seu trabalho consegue expor individualmente na Galeria Martin Sumers. Conhece Jonh Cage, cuja música o inspirará a fazer um desenho aguarelado de uma planta de uma cidade intitulado “A Dip in the Lake”.
Nova Iorque torna-se uma influência importante no seu trabalho. Rapidamente surgem nos seus trabalhos um retrato da vitalidade das multidões nas grandes cidades, da grande variedade de faces que continuamente se cruzam nas ruas.
Em Julho desse mesmo ano Botas vê em Nova Iorque vinte auto-retratos de Egon Schiele na Galeria Serge Sabarsky. Botas, pasmado com o que acabava de ver, rapidamente compreendeu que estava diante de um dos seus mestres. Schiele, que se auto-retratava das mais diversas formas, sem olhar a preconceitos, deu-lhe a luz do que viria a ser o principal tema do trabalho de Botas até falecer: o auto-retrato.
À medida que os meses lhe fugiam o seu alucinante ritmo de trabalho acelerava. Fez desenhos para capas de livros de vários amigos, sempre com muita intensidade.
A sua apreciação pela poesia conduziu-o à sua obra-prima: os cinquenta e um desenhos a partir de “Le Spleen de Paris”, a partir da leitura de Baudelaire. Todos estes trabalhos deixam-nos uma sensação de algo inesgotável, com uma segurança perturbante, com uns fundos crepusculares vindos de um pintor romanesco e narrativo.
Os quadros dos últimos meses da sua vida, no ano de 1983, estão repletos de caveiras, de corpos putrefactos, de cadáveres. De tanto em tanto é revelada uma certa esperança na sua obra, um desejo de vencer a morte. Mário Botas faleceu então em 1983, cedo demais, mas cuja obra ficou para a eternidade.


“Retrato de Fernando Pessoa”, Mário Botas, 1982; Tinta-da-china s/papel, 15 x 15 cm

Mário Botas e a literatura

Os auto-retratos de Mário Botas são mais do que meros auto-retratos, são, basicamente, um modo de Botas se conhecer, se explorar. O que aliás é válido também para todos os seus retratos: todos eles têm algo de Botas, como indirectamente se refere a propósito de Schiele:
“Quando Rembrandt ou Dürer se auto-retratavam, utilizavam-se como motivos das técnicas que os distinguiam. O que eu vejo em Schiele é o contrário: em tudo ele se coloca como sujeito, e discorrendo sobre outros é de si que fala. Centrado no seu ser único, Schiele não se avançou apenas em termos de vanguarda artística; encaminhou-se para o que me parece ser a posição essencial do artista. Não um produtor mais ou menos sofisticado de obras de arte, mas alguém que apaixonada e simultaneamente se desvenda e se oculta perante si próprio, guardando nos olhos a sua Imagem única e perturbadora.”
Ou seja, Botas seguiu a via de Schiele e, em qualquer das suas obras nos fala de si, tornando os modelos biombos ou espelhos, ocultando e desvendando segredos deles e de quem os fez.
A distinção entre os seus retratos e auto-retratos passa por graus diversos de representação. Enquanto que nos auto-retratos se reconhece logo Mário Botas, os modelos dos restantes retratos nem sempre são reconhecíveis. Exceptuando alguns retratos de Baudelaire, Fernando Pessoa ou Kafka, é como se as parecenças não o preocupassem. Até poderia ser que representasse melhor aqueles que melhor conhecia, ele mesmo e os autores que lia, que sabia de cor. Mas não necessariamente. O poeta Mário de Sá-Carneiro de que Botas em certa altura se identificou – provavelmente por pensar que, como ele, iria morrer cedo – o Mário Esfinge-Gorda, com tanto fervor retratado/ilustrado no retábulo “Dispersão” (1978), só é identificável por ser gordo ou sorumbático, não por ser semelhante.
Este e outros trabalhos não são nada mais, nada menos, que um combate contra a destruição anunciada, contra a sua morte. Um pedido de recordação para aquele que se preparava para enfrentar os seus demónios e tentava apaziguá-los, embora soubesse da resposta de Tirésias à mãe de Narciso, quando ela lhe perguntou se o filho teria longa vida. Sim, respondeu-lhe o adivinho, se nunca se conhecer. Mas conheceu-se, e ali morreu, apaixonado pela sua imagem.
Botas utilizou então a literatura como inspiração para o seu trabalho. Na sua obra pictórica há referências a vários escritores e filósofos: Fernando Pessoa, Baudelaire, Sade, Lichtenberg, Poe, Nietzsche…Sobre isto disse:
“Desenhar sobre uma obra literária é, para mim, no essencial, como fazer um auto-retrato sem espelho… Tento até certo ponto absorver o clima da obra, por vezes sem a ler completamente, para a deixar mais indefinida e mais abordável a fronteira que separa o meu mundo desse outro mundo de palavras. Depois, um dia, num desenho, começa a surgir uma ideia ou um ambiente que me sugere outra ideia ou ambiente paralelo na obra literária.”
Mário fez de Fernando Pessoa o seu sósia , desde desenhar o mapa do túmulo de Pessoa no cemitério dos Prazeres para se familiarizar com o seu poiso final; a ter duas árvores predilectas: a palmeira e o cipreste. Era como se as árvores falassem por Caeiro, que o ajudou a aprender a difícil serenidade de enfrentar o Tempo sem pânico. Através da palmeira partia em todas as direcções ao encontro da vida e, através do cipreste regressava à unidade, à reunião dos ramos num só impulso. Através destas duas árvores, Botas viveu no seu modo, a heteronímia e a busca de unidade pessoanas.

“O quarto de Bernardo Soares”, Mário Botas, 1982; Tinta-da-china e aguarela s/papel

“As Moradas Filosofais”, Mário Botas, 1980; Tinta-da-china e aguarela s/papel, 26 x 18 cm


Referências:

AZEVEDO, Fernando; FERNANDES, Maria João; LOPES, Teresa Rita; LOURENÇO, Eduardo; SARAMAGO, José; Fernando Pessoa – O Impossível – Possível Retrato; Casa de Serralves; 1988

FARIA, Almeida; Mário Botas, O Pintor e o Mito; Edições João Sá da Costa; 2002

FRANÇA, José-Augusto; História da Arte em Portugal, O Modernismo; Editorial Presença, Lisboa, 2004

VÁRIOS AUTORES; Fernando Pessoa e a Europa do Século XX; Fundação Serralves, Porto, 1991